18 janeiro, 2021

As implicações da teoria do Lev Vygotsky no contexto educacional

 

Introdução

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Lev Semionovich Vygotsky nasceu em 1896 em Orsha, na Bielo-Rússia, país pertencente à antiga União Soviética. E morreu de tuberculose em 1934 em Moscou, mas a sua obra ainda está em pleno processo de descoberta e debate em vários pontos do mundo. Ele foi um pensador complexo e tocou em muitos pontos importantes da pedagogia contemporânea. 

A teoria de aprendizagem de Vygotsky tem uma ênfase importante no papel das relações sociais no desenvolvimento intelectual. Para ele, o homem é um ser que se forma em contacto com a sociedade.

Vygotsky desenvolveu um grande trabalho, reconhecido pelos estudiosos sobre a formação de conceitos. Os conceitos espontâneos ou do quotidiano, também chamados de senso comum, são aqueles que não passaram pelo crivo da ciência.

Vygotsky foi também um importante pensador em sua área e época, foi pioneiro no conceito de que o desenvolvimento humano e intelectual das crianças ocorre em função das interações sociais e condições de vida.

A ideia de pesquisar sobre Lev Vygotsky, a sua vida, obra e influência na educação surgiu a partir do momento que se começou a estudar diferentes teóricos e as suas contribuições para o desenvolvimento humano e a educação, assim despertou a curiosidade e dúvidas sobre até que ponto a teoria de Vygotsky está presente no contexto-escolar, se as teorias apresentadas por Vygotsky são reais e podem ser aplicadas nas salas de aula.

O objectivo maior deste trabalho é observar e analisar as implicações da teoria do Lev Vygotsky no contexto educacional, visando desta forma, fazer uma abordagem do problema e a linguagem; descobrir a origem do pensamento e da língua, de acordo com Vygotsky; descrever a influência da Zona de Desenvolvimento Próximo no processo de ensino e aprendizagem e por fim, contextualizar a teoria de Vygotsky na realidade educacional moçambicana, abordando sobre a tarefa do professor na sala de aulas no aproveitamento dessa teoria.

Vida e obra de Lev Vygotsky: Breve resenha

Lev Vygotsky nasceu em 1896 na Bielo-Rússia, de família judia. No ano de 1918 formou-se em Direito pela Universidade de Moscou. Faleceu em 1934, vítima de tuberculose, doença com que conviveu durante quatorze anos.

Vygotsky era formado em direito e trabalhou como professor e também como pesquisador em áreas como a Psicologia, Filosofia e Pedagogia. Formou com outros jovens um grupo que buscava uma nova Psicologia na Rússia Pós-Revolução. A sua produção foi vasta, escreveu cerca de duzentos trabalhos científicos, que foram importantes para pesquisas posteriores pois tratam de temas como linguagem, educação, deficiência e neuropsicologia.

Vygotsky iniciou sua carreira aos 21 anos, após a Revolução Russa e já nesta época preocupava-se também com questões ligadas a Pedagogia. Em 1922 publicou um estudo sobre os métodos de ensino da literatura nas escolas secundárias. Demonstrou grande interesse pela psicologia acadêmica a partir de trabalhos envolvendo problemas de crianças com defeitos congênitos, tais como: cegueira, retardo mental severo, surdez entre outras nos quais dedicaria anos de estudos buscando oportunidades de compreensão dos processos mentais humanos, sendo este o centro do seu projeto de pesquisa. Embora tenha um curto período de vida deixou uma grande herança teórica que foi silenciada por quase meio século sendo acusado de ser idealista.

Vygotsky inicia as suas teorias no final da revolução russa quando o país se torna socialista criando assim um pensamento marxista, pois segundo Rego (1994) “tudo é histórico, fruto de um processo e, que são as mudanças históricas na sociedade e na vida material que modificam a natureza humana em sua consciência e comportamento”.

Influenciado por estas ideias Vygotsky se dizia marxista e desenvolveu a sua teoria sobre funções psicológicas superiores, e como a linguagem e o pensamento estão fortemente conectados. Curiosamente suas obras não obtiveram sucesso na União Soviética, território marxista, sendo conhecido por lá como comunista de direita.

A teoria de Vygotsky

Os estudos de Vygotsky sobre aprendizado decorrem da compreensão do homem como um ser que se forma em contacto com a sociedade. “Na ausência do outro, o homem não se constrói homem”, diz ele.

A sua compreensão é a de que a formação se dá na relação entre o sujeito e a sociedade a seu redor. Assim, o indivíduo modifica o ambiente e este o modifica de volta.

Dessa maneira, a interação que cada pessoa estabelece com um ambiente, a experiência pessoalmente significativa, é muito importante para ela. Por isso, a teoria de aprendizagem de Vygotsky ganhou o nome de socioconstrutivismo e tem como temas centrais o desenvolvimento humano e a aprendizagem.

Vygotsky e seus colaboradores, como explicita Oliveira (1994), desenvolveram estudos na tentativa de reunir num mesmo modelo explicativo as dimensões biológicas e sócio-histórico-culturais do desenvolvimento humano. Para tanto, utilizaram “[...] uma abordagem qualitativa, interdisciplinar e orientada pelos processos de desenvolvimento do ser humano” (OLIVEIRA, 1994, p. 14). A autora destaca como

[...] ‘pilares’ básicos do pensamento de Vygotsky: 

·         As funções psicológicas têm um suporte biológico pois são produtos da atividade cerebral; 

·         O funcionamento psicológico fundamenta-se nas relações sociais entre indivíduo e o mundo exterior, as quais desenvolvem-se num processo histórico;

·         A relação homem / mundo é uma relação mediada por sistemas simbólicos [sic] (OLIVEIRA, 1994, p. 23).

Com esses três pilares forma-se a base do pensamento vigotskiano e de sua compreensão sobre o processo de aprender. Ao afirmar o suporte biológico das funções psicológicas, Vygotsky (2001) apresenta o cérebro como um sistema aberto a mudanças e dinâmico que é reconstruído a partir das redes de significados tecidos ao longo da história da espécie humana e do desenvolvimento individual simultaneamente. Dessa maneira, o autor defende que a espécie e o indivíduo se constituem no social, no compartilhamento da cultura e da história, assumindo este ponto como um dos pilares de sua teoria. O terceiro pilar remete ao conceito de mediação, pois o autor declara que a relação estabelecida pelo indivíduo com o mundo não é direta, mas mediada por sistemas simbólicos.

A partir desta abordagem Vygotsky (2001) rompe com as dicotomias corpo/mente, biológico/social, homem membro da espécie/homem participante de um processo histórico. Produzindo uma síntese para o campo da psicologia que integra tais facetas fazendo uma ligação entre a produção científica da época e a sua proposição psicológica fundamentada no aporte do materialismo histórico-dialético, ou seja, assume o cunho materialista de sua teoria e usa o referencial teórico-metodológico do marxismo para olhar o desenvolvimento psicológico, propondo uma teoria a partir desse aporte filosófico. O autor considera o contexto sociocultural de produção do conhecimento e a importância das interações para a aprendizagem deste, bem como afirma que “[...] o homem transforma-se de biológico em sócio histórico, num processo em que a cultura é parte essencial da constituição da natureza humana” (OLIVEIRA, 1994, p. 24).

Pensamento e linguagem na teoria de Vygotsky

A linguagem é o principal instrumento de representação simbólica que os seres humanos possuem. A sua função inicial é a comunicação, a compreensão. Essa função está directamente ligada ao pensamento, permitindo a interação social.

Para Vygotsky a linguagem é associada a fala, então, inicialmente o desenvolvimento da linguagem ocorre com a finalidade da comunicação. Pode-se usar como exemplo o choro dos bebês e também os sons emitidos por animais, os quais partem do mesmo propósito de comunicação, mesmo que de forma primitiva e sem elaboração conceitual.

Para Vygotsky, os signos, a linguagem simbólica desenvolvida pela espécie humana, têm um papel similar ao dos instrumentos, pois tanto os instrumentos de trabalho quanto os signos são construções da mente humana, que estabelecem uma relação de mediação entre o homem e sua realidade. Por esta similaridade, Vygotsky denominava os signos de instrumentos simbólicos, com especial atenção à linguagem, que para ele configurava-se num sistema simbólico fundamental em todos os grupos humanos e elaborado no curso da evolução da espécie e de sua história social.

No desenvolvimento infantil, a capacidade de utilização de instrumentos ou inteligência prática tem uma origem anterior à capacidade de falar, e foram tratados por ele como processos separados e simultâneos. No seu livro "A formação social da mente" (p.11 ed. 2008) observa-se que, apesar da possibilidade de estes sistemas operarem independentemente na criança pequena, no adulto eles mantêm uma unidade dialética, e se constituem como uma verdadeira essência do comportamento humano complexo. O autor atribui à actividade simbólica uma função organizadora específica: "que invade o processo de uso do instrumento e produz formas fundamentalmente novas de comportamento" (Vygotsky, 1999 op.cit.).

O pensamento generalizante definido como associação da linguagem ao pensamento. O uso da linguagem nesse caso se dá de forma mais elaborada e por meio de outros processos mentais superiores, o que nos difere das outras espécies. Por exemplo, ao chamar um gato de gato, a criança o agrupa na categoria dos gatos, que não é um cão e nem um coelho. Na psicologia o significado das palavras é um conceito, que é um acto do pensamento, logo, o significado pode ser considerado um fenômeno do pensamento.

Em Pensamento e linguagem, Vygotsky desenvolve a sua pesquisa ocupando-se particularmente da linguagem verbal, considerada na relação com os processos cognitivos, no processo de interiorização, nas relações entre linguagem externa e linguagem interna e na relação entre sentido (o significado contextualizado) e o significado (a acepção de uma palavra compartilhada por uma comunidade de falantes e definível no dicionário).

Referindo-se às obras de Piaget de 1967 e de 2007 sobre linguagem e pensamento na criança, Vygotsky refuta a tese de que a linguagem socializada seja precedida por uma linguagem egocêntrica, autista. O social não se encontra no fim do desenvolvimento, mas é a base dele, e a assim chamada linguagem egocêntrica pressupõe tal base. Ela se coloca no processo de interiorização da linguagem externa. É uma forma transitória da linguagem externa à linguagem interna. Ao esquema de Piaget, que indica a seguinte sucessão genética dos momentos fundamentais no pensamento lógico-verbal: pensamento autista não verbal – linguagem egocêntrica e pensamento egocêntrico –, linguagem social e pensamento lógico, Vygotsky contrapõe o esquema: linguagem social – linguagem egocêntrica – linguagem interna.

Influência da Zona de desenvolvimento próximo no processo de ensino e aprendizagem

Um dos conceitos mais importantes é o da Zona de desenvolvimento proximal, que se relaciona com a diferença entre o que a criança consegue realizar sozinha (nível de desenvolvimento real) e aquilo que é capaz de aprender e fazer com a ajuda de uma pessoa mais experiente (nível de desenvolvimento potencial), representado por um adulto, uma criança mais velha ou com maior facilidade de aprendizado.

A distância entre os dois níveis de desenvolvimento chamamos de zona de desenvolvimento potencial ou proximal, o período que a criança fica utilizando um apoio até que seja capaz de realizar determinada actividade sozinha

A Zona de Desenvolvimento Proximal é, portanto, tudo o que a criança pode adquirir em termos intelectuais quando lhe é dado o suporte educacional devido. Essa é a zona de desenvolvimento considerada por Vygotsky a mais importante, porque permite intervenções e possibilita a promoção de transformações. Por isso Vygotsky afirma que “aquilo que é zona de desenvolvimento proximal hoje será o nível de desenvolvimento real amanhã, ou seja, aquilo que uma criança pode fazer com assistência hoje, ela será capaz de fazer sozinha amanhã” (VIGOTSKY, 1984, p. 98).

O conceito de zona de desenvolvimento proximal é muito importante para pesquisar o desenvolvimento e o plano educacional infantil, porque este permite avaliar o desenvolvimento individual.

Aqui é possível elaborar estratégias pedagógicas para que a criança possa evoluir no aprendizado. Esta é a zona cooperativa do conhecimento. O mediador ajuda a criança a concretizar o desenvolvimento que está próximo, ou seja, ajuda a transformar o desenvolvimento potencial em desenvolvimento real. O desenvolvimento e a aprendizagem estão inter-relacionados desde o momento do nascimento, os meios físicos ou sociais influenciam no aprendizado das crianças de modo que chegam as escolas com uma série de conhecimentos adquiridos.

A teoria de Vygotsky na realidade educacional moçambicana

A escola se torna importante a partir do momento que dentro dela o ensino é sistematizado sendo actividades diferenciadas das extraescolares e lá a criança aprende a ler, escrever, obtém domínio de cálculos, entre outras, assim expande os seus conhecimentos. Também não é pelo simples facto da criança frequentar a escola que ela estará aprendendo, isso dependerá de todo o contexto seja questão política, econômica ou métodos de ensino. Conforme foi visto até aqui, as aulas onde o aluno fica ouvindo e memorizando conteúdos não basta para se dizer que o aprendizado ocorreu de facto, o aprendizado exige muito mais. Daí que torna-se necessário e indispensável a aplicação da teoria de Vygotsky em várias escolas em Moçambique.

A escola deve estar atenta ao aluno, valorizar seus conhecimentos prévios, trabalhar a partir deles, estimular as potencialidades dando a possibilidade de este aluno superar suas capacidades e ir além ao seu desenvolvimento e aprendizado. Para que o professor possa fazer um bom trabalho ele precisa conhecer o seu aluno, as suas descobertas, hipóteses, crenças, opiniões desenvolvendo diálogo criando situações onde o aluno possa expor aquilo que sabe. Assim os registros, as observações são fundamentais tanto para o planejamento e objectivos quanto para a avaliação.

Olhando para a realidade a educação em Moçambique, verifica-se que as teorias de Vygotsky não saem do papel, durante as actividades elas não são aplicadas em quase todas as escolas, principalmente as públicas. A escola prega em seus documentos uma proposta de trabalho voltada para o crescimento do aluno, deseja formar um aluno crítico, capaz de pensar, fazer as suas escolhas, decidir pelo seu melhor. Mas os professores ao elaborarem as suas aulas não utilizam o conhecimento prévio dos alunos, fazendo uso apenas dos conceitos científicos.

Durante o planejamento eles cumprem com todos os conteúdos não proporcionando espaços para os alunos questionarem ou fazerem colocações. Mesmo tendo as classes dispostas em grupos não é permitido que os alunos conversem entre si fazendo trocas de ideias e conhecimentos, não se permite que ocorra uma interação. Os professores não são vistos como mediadores, nem aquelas pessoas que impulsionam, que estimulam valorizando o potencial do aluno, avaliando as capacidades do aluno, mas sim como pessoas autoritárias que sabem e passam o conteúdo aos alunos, avaliando aquilo que já internalizaram. Utilizando-se assim de um ensino tradicional visando regras, disciplinas e que o melhor aluno é aquele que fica em silêncio, no seu lugar, responde conforme solicitado e demonstra ter aprendido através de provas.

Conclusão

Após uma vasta indagação em torno do tema em causa, concluiu-se que os estudos de Vygotsky sobre aprendizado decorrem da compreensão do homem como um ser que se forma em contacto com a sociedade.

Uma das contribuições de grande importância foi a relação que estabelece entre pensamento e linguagem, desenvolvida no seu livro “Pensamento e Linguagem”. Segundo o estudioso, o desenvolvimento da linguagem implica o desenvolvimento do pensamento, já que é pelas palavras que o pensamento ganha existência.

Para ele, a linguagem tem duas funções básicas: intercâmbio social e pensamento generalizante. O intercâmbio social é bem visível em bebês, por exemplo: por meio de gestos, expressões e sons, eles demonstram sentimentos, desejos e necessidades. O pensamento generalizante ocorre quando se fala uma palavra: ao dizer, por exemplo, frango, o pensamento classifica a palavra em “animais” e remete à imagem dele.

Um dos conceitos mais importantes é o da Zona de desenvolvimento proximal, que se relaciona com a diferença entre o que a criança consegue realizar sozinha (nível de desenvolvimento real) e aquilo que é capaz de aprender e fazer com a ajuda de uma pessoa mais experiente (nível de desenvolvimento potencial), representado por um adulto, uma criança mais velha ou com maior facilidade de aprendizado.

Segundo Vygotsky (1984, p. 113, grifo do autor) “[...] o estado do desenvolvimento mental da criança só pode ser determinado referindo-se pelo menos a dois níveis: o nível de desenvolvimento efectivo e a área de desenvolvimento potencial”.

Em outras palavras, o desenvolvimento efectivo, ou desenvolvimento real, são funções já amadurecidas na criança, aquilo que ela já consegue resolver de forma independente, produto final do desenvolvimento. Já a área de desenvolvimento potencial (ou Zona de Desenvolvimento Próximo), compreende as funções que ainda estão em processo de maturação, e que necessitam de assistência de adultos para que sejam efectivamente desenvolvidas.

Referências

KÖCHE, José Carlos. Fundamentos de metodologia científica: teoria da ciência e prática da pesquisa. 14. ed. rev. amp. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1997.

Lev Vygotsky, In Wikipédia: A enciclopédia livre. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Lev_Vygotsky. Acesso em 06/10/2020, 12:44.

OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento – um processo sócio histórico. São Paulo: Spione, 1994.

PIAGET, J. Seis estudos de psicologia. Rio de Janeiro: Forense-Universitária. 1967

PIAGET, J. Epistemologia genética. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes. 2007

REGO, Cristina Tereza. VYGOTSKY. Petrópoles: Vozes, 1994.

VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984.

VYGOTSKY, Lev S. A construção do pensamento e da linguagem. Tradução Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

______. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. Tradução José Cipolla Neto, Luís Silveira Menna Barreto, Solange Castro Afeche. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.


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